Braga – Mãos de Manteiga

Autor: José Litra
Membro do Secretariado da Federação Distrital de Braga do PS

Certamente que todos se lembrarão de um filme que marcou de forma indelével a história de adolescência de várias gerações, protagonizado por Tim Burton, um cineasta norte-americano, reconhecido no mundo do cinema por ser autor de filmes que se destacam pela sua excentricidade.

Falo do intemporal “Eduardo – Mãos de Tesoura”. Um moderno conto de fadas com a assinatura de Johnny Depp, onde as mãos deram lugar a umas tesouras e cuja história revela um mundo distorcido e de personagens “emocionalmente disfuncionais”. Uma história tocante sobre um homem que não pode tocar e que nos transmite que nem tudo aquilo que parece é, um pouco à semelhança de “A Alegoria da Caverna”, de Platão, na sua obra “A República”.

E é precisamente esta premissa que me leva inevitavelmente a comparar este magnífico filme à realidade infeliz que hoje se vive na gestão da nossa querida cidade de Braga às mãos do seu edil, Ricardo Rio.

Se Tim Burton protagonizou um dos mais relevantes clássicos contemporâneos do mundo do cinema, dando lugar a “Eduardo – Mãos de Tesoura”, Ricardo Rio seguiu-lhe a excentricidade e a fantasia tentando usurpar-lhe a imagem que o carateriza e a destacou no tempo.

 – E, certamente baseado no conto que deu origem a um dos seus filmes mais marcantes, criou a saga, “Braga – Mãos de Manteiga”, toda ela assente em fantasias e excentricidades –  

Mas, se por um lado, a figura principal “Eduardo”, interpretada por Johnny Depp, rapidamente conquistou o coração de todos e mostrou o seu talento a cortar cabelos e sebes, fazendo do seu maior defeito a sua maior virtude, por outro lado, Ricardo Rio, o protagonista desta saga; “Braga – Mãos de Manteiga”, descaracterizou a essência da arte cinematográfica original transformando-lhe aquilo que podiam ser as suas virtudes em defeitos. Criou um cenário ilusório, sombrio e sem chama, onde o possível não foi conseguido por inabilidade para o ato.

Braga, nos últimos 6 anos, tem sido “Mãos de Manteiga” ao deixar escorregar por entre os dedos todas as potencialidades que reúne para as oportunidades que deviam catapultar a cidade para um outro patamar de nível internacional, dando, o atual edil, preferência a devaneios e “fait divers” que são a matéria que melhor domina.

Vejamos:

Braga foi mãos de manteiga no desporto, deixando fugir entre dedos a oportunidade – e os milhões gastos – na “Cidade Europeia do Desporto”, não passando apenas de um evento que se traduziu num verdadeiro “rastilho de ilusões”, quando na verdade devia ter sido encarado como uma nova janela de oportunidades e esperança para o setor e, com isso até, tido a capacidade de deixar um legado físico para a cidade, potenciando a construção do pavilhão há muito necessário para uma das maiores instituições da cidade: o ABC; 

Braga foi mãos de manteiga na juventude, deixando fugir entre dedos a oportunidade – e aqui os milhões gastos também – com a “Capital Ibero-americana da Juventude”, ocultando a inércia que gravitou em torno de todo este título. Depois de 2012, ano em que Braga celebrou o título de Capital Europeia da Juventude, com um programa ambicioso e que fez jus ao facto de sermos a cidade mais jovem da Europa, com um legado visível como é o GNRation, um dos edifícios mais icónicos da cidade, a Noite Branca, uma das noites mais marcantes da capital de distrito, tivemos então um evento que tentou rasurar da memória o ano de 2012, mas que apenas veio confirmar a incapacidade e a irresponsabilidade de uma vereação e demais equipa em gerir o município, bem como de corresponder aos novos desafios que uma cidade Ibero-Americana da juventude impunha, em que o legado deixado foi, meramente, uma “rotunda das bandeiras”. 

Braga foi mãos de manteiga na mobilidade, deixando fugir entre dedos os diversos fundos que o governo disponibilizou na anterior legislatura para o efeito de construção de vias cicláveis e com isso perdeu a oportunidade de transformar a cidade numa verdadeira capital da mobilidade; 

Braga foi mãos de manteiga no ambiente, deixando fugir entre dedos as promessas que foram “fogueteando” ao longo de várias campanhas eleitorais como o Parque Eco Monumental das Sete Fontes e a conclusão do Parque Urbano Norte;

Braga foi mãos de manteiga na habitação, não tendo conseguido contrariar as dimensões castradoras deste flagelo, deixando, também aqui, fugir entre dedos a oportunidade de contribuir para uma política controlada de custos habitacionais e, desta forma, potenciar a emancipação jovem.

Braga foi mãos de manteiga na cultura, deixando fugir entre dedos a capacidade de fazer do renovado PEB um espaço verdadeiramente indutor de novos públicos e de uma nova dinâmica. Ademais, também aqui na cultura, Braga parte já com largas horas de atraso na corrida à capital europeia da cultura 2027, onde pouco ou nada ainda se fez.

Braga foi mãos de manteiga no património, deixando fugir entre os dedos a recuperação do património edificado para a instalação de valências culturais e sociais de usufruto público – como é o caso da Fábrica Confiança – desperdiçando a aproximação da cidade à universidade, aliás, como sempre defendeu o seu maior mentor;

Vários são os exemplos que podia aqui continuar a elencar, mas isso certamente iria retirar ao eleitor a curiosidade para assistir à 2º parte deste filme. No entanto – e se mo permitem – não posso deixar de praticar um ato tão sobejamente conhecido (e até criticado) no mundo do cinema e dar uma de “Spoiler”. 

Ao contrário de “Eduardo”, que vivia sozinho no castelo que pertencera ao seu inventor até o dia em que “Peg Boggs”, uma habitante local, o descobre e resolve adotá-lo, levando-o para a civilização e permitindo à personagem conquistar o coração de todos e mostrar o seu talento a cortar cabelos e sebes, aqui, nesta versão protagonizada por Ricardo Rio, a personagem continua a viver sozinha no seu castelo, não conseguindo contrariar a velha máxima que a peça original nos transmite: de facto, nem tudo o que parece realmente é! E Braga, ao contrário do que querem fazer passar, tentando ocultar a negra realidade com sucessivas funçanatas, tornou-se numa cidade utópica.