Compromissos ou publicidade enganosa?

Autor: Jorge Cruz
Membro do Secretariado Concelhio

“Quanto mais forte é um carácter, menos sujeito está à inconstância”
(Stendhal)

Numa primeira análise ao primeiro ano deste segundo mandato de Ricardo Rio como presidente da Câmara de Braga ressalta, desde logo, a inexistência de grandes motivos de júbilo, bem pelo contrário. É certo que finalmente foi inaugurada a renovação do antigo Parque de Exposições bem assim como o complexo desportivo da Rodovia mas convenhamos que, pese embora a dimensão e relevância das duas obras, estamos perante o cumprimento minimalista de um programa que se arrasta desde há cinco anos.
Do ponto de vista político, este início do segundo mandato de Rio é desastroso e apenas serve para demonstrar que as maiorias políticas nem sempre correspondem a uma melhoria da actuação dos eleitos. Isso é particularmente sentido pelos cidadãos quando estes descobrem que elegeram políticos permeáveis a cantos de sereia que os levam a desrespeitar as boas práticas democráticas.

São, infelizmente, vários os casos negativos que demonstram à saciedade que Ricardo Rio tem vindo, paulatina mas conscientemente, a cambiar o seu perfil político, deixando-se encantar por correntes tão em moda que se movem em terrenos lamacentos e escorregadios que historicamente conduzem a péssimos resultados.

No estafado mas sempre vivo caso da Confiança – uma das maiores vergonhas da coligação Juntos por Braga, mas não a única a figurar no seu cadastro político – Ricardo Rio mostrou claramente qual é o seu entendimento quanto ao uso de uma maioria absoluta: afirmou, preto no branco, aparentemente sem qualquer pingo de vergonha, que a decisão foi tomada sem ouvir quem deveria mas que a eventual audição nada mudaria.

Pelos vistos, é com este conceito enviesado de democracia que os cidadãos bracarenses têm que conviver nos próximos três anos. Sim, porque esta alteração comportamental do edil decorre da legitimidade, proclamada até à exaustão, que advém de os eleitores terem reforçado a confiança nas suas políticas, curiosamente ainda não postas em prática, salvo raríssimas excepções.
Portanto, no balanço acumulado de cinco anos da mudança proposta pela coligação de direita, não se pode dizer que se tenham registado acentuadas melhorias, bem pelo contrário, pontualmente até se verificaram retrocessos. Senão vejamos.

Notou-se alguma alteração na política de gestão urbanística da cidade, isto é, o novo executivo mudou o paradigma que criticava com veemência ou, pelo contrário, alimentou o mesmo tipo de relações, com os mesmos protagonistas? Neste particular, a única variação terá sido o estabelecimento de novas pontes, a chegada de novos promotores, como o grupo Sonae, e enormes atrasos nos despachos dos serviços técnicos do município que superintendem na área dos licenciamentos.
E o interesse público, será que agora se sobrepõe, mais clara e inequivocamente, aos vários interesses privados em jogo? Considerando, por exemplo, os contornos dos licenciamentos das duas superfícies comerciais em Maximinos e na rua 25 de Abril, a resposta a esta pergunta não pode ser positiva.

Impõe-se questionar também por onde andará o prometido complexo museológico das Sete Fontes. E a tão propalada ligação da rua D. Pedro V à rua Nova de Santa Cruz, será algum dia realidade ou ter-se-á limitado apenas ao controverso arranjo desta última via, empreitada que, aliás, suscitou os mais variados protestos, inclusive do autarca da freguesia local.

Seria extremamente fácil enunciar o extenso rol de compromissos não cumpridos mas tal exercício tornar-se-ia deveras fastidioso para os leitores. Mesmo assim, convém lembrar algumas bandeiras com que a coligação de direita acenou aos eleitores para cativar os seus votos. Do longo rol daquilo que afinal se pode denominar de publicidade enganosa fazem parte as promessas de intervenção nos centros comerciais da primeira geração, a construção de dezenas de quilómetros de ciclovias, no âmbito de uma política de mobilidade que ainda ninguém conhece, e a resolução do gravíssimo problema do nó rodoviário de Infias. Isto, claro está, para referir apenas as de maior relevância, sem ser exaustivo.

Creio que sobejam razões para lamentar o fraquíssimo grau de cumprimento dos compromissos eleitorais que a coligação de direita assumiu com os bracarenses. E, consequentemente, fazer um balanço negativo da sua gestão.
No entanto, com a mesma honestidade intelectual que se denuncia o persistente incumprimento da esmagadora maioria dos compromissos eleitorais, também não custa reconhecer – e saudar – o excelente trabalho desenvolvido pela vereadora Sameiro Araújo, que conseguiu trazer para Braga o título de melhor Cidade Europeia do Desporto.

A professora Sameiro Araújo, que no desporto, em particular no atletismo de alta competição, sempre foi e continua a ser um nome respeitável e respeitado, levou para a edilidade uma energia e entusiamo que contagiaram a sua equipa e contribuíram para o sucesso de Braga Cidade Europeia do Desporto 2018. Pena é que os seus colegas da vereação não tivessem sido tocados por este elã de Sameiro Araújo.

Artigo originalmente publicado na edição de 6 de novembro do jornal Correio do Minho.