O seu a seu dono!

Autor: Jorge Cruz
Membro do Secretariado Concelhio

“Há poucos homens capazes de prestar homenagem ao sucesso de um amigo, sem qualquer inveja”
(Ésquilo)

“Durante este ano houve um aumento substancial da população a praticar desporto”. A constatação desta evidência na cidade de Braga é de Sameiro Araújo, a vereadora do Desporto, por sinal a principal responsável por essa realidade, e que agora está esperançada em que o título obtido, de melhor Cidade Europeia do Desporto (CED) 2018, “seja mais um estímulo para que muitos mais bracarenses incluam a prática desportiva no seu quotidiano”.

Com a humildade de quem tem obra feita e está acostumada a lidar com o sucesso, Sameiro Araújo explicou, sem a menor sobranceria, que “a qualidade e alcance dos eventos, a promoção da prática desportiva para todos e, consequentemente, a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, foram alguns dos aspetos que contribuíram para que Braga fosse vencedora durante o processo de seleção”. Face aos excelentes resultados, a responsável municipal promete “continuar a imprimir uma grande dinâmica entre o desporto escolar e o desporto informal, envolvendo toda a população”.

Acredito que os bracarenses, em geral, e os amantes do desporto, em particular, reconhecerão facilmente o excelente labor de Sameiro Araújo em prol da actividade desportiva, em particular incentivando e fomentando a sua prática a partir das camadas mais jovens. Claro que os grandes eventos competitivos nacionais e internacionais que passaram por Braga também contribuíram para os resultados que se conhecem. De igual modo, o contributo do movimento associativo no desporto em Braga também não pode ser ignorado.
Em todo o caso, e pese embora o facto de no mundo do desporto, em particular no atletismo, o seu trabalho ser reconhecido a nível internacional – treinadora de atletas campeãs da Europa e do Mundo e, nessa qualidade, “habituée” nos Jogos Olímpicos desde 1984 -, a verdade é que o exercício de funções autárquicas era, em Sameiro Araújo, um terreno completamente virgem. Logo, naturalmente, de resultados imprevisíveis.

Agora, porém, cinco anos após a sua entrada para a vereação, a treinadora de campeãs fez jus ao prestígio granjeado ao longo do seu extenso percurso profissional ao lograr, numa demonstração de grande competência, desenvolver um trabalho que posicionou Braga na dianteira das restantes 20 cidades que ostentaram o título de Cidade Europeia do Desporto.
Na cerimónia de entrega do galardão, em Bruxelas, o presidente da Câmara falou, com indisfarçável orgulho, das dezenas de modalidades abrangidas, das centenas de eventos realizados, das dezenas de milhar de participantes e das centenas de milhar de espectadores. Ricardo Rio sublinhou que foram esses “dados que contribuíram, decisivamente, para que Braga se destacasse das restantes 20 cidades que durante este ano ostentaram o título de Cidade Europeia do Desporto” mas, surpreendentemente, não teve uma simples palavra de apreço ou de reconhecimento pelo trabalho de Sameiro Araújo e da sua incansável equipa. Percebo, mas não creio que seja aceitável este “esquecimento” do presidente da Câmara.

Como é seu timbre, Ricardo Rio quis açambarcar todos os louros e fê-lo com a habitual dose de egocentrismo que, mais uma vez, o impeliu a não reconhecer o labor de outros, desde logo da sua vereadora, facto que, como é óbvio, configura uma grande injustiça não apenas para a sua equipa mas, inclusivamente, para os seus antecessores. Já para não falar das condições criadas, ao longo de anos, para que a CED tivesse sido possível. Desse ponto de vista, os deputados municipais de Braga assumiram uma posição bastante mais objectiva, com maior correspondência com a realidade, designadamente quando aprovaram, sob proposta do PS, um voto de louvor pelo título de melhor CED 2018 em que se considera que “é o prémio justo para todos os bracarenses e suas colectividades, que se empenharam com dedicação no engrandecimento do concelho de Braga aos olhos da comunidade internacional”. Aliás, e numa crítica implícita a declarações de Ricardo Rio, o texto sublinha que “a justiça e a objetividade aconselham a dizer que ele (o prémio) é também ‘a cereja no topo do bolo’ de décadas de gestão extraordinária dos socialistas no concelho de Braga, com apoio intensíssimo ao desporto e suas associações”.

Na altura em que a preparação de um novo desígnio para a cidade parece estar a iniciar-se – ser Capital Europeia da Cultura em 2027 –, e em vésperas do encerramento oficial do programa da Cidade Europeia do Desporto, será porventura o momento para parar um pouco para reflectir, para analisar o que correu menos bem, enfim, para fazer um balanço consciente que permita, no futuro, corrigir eventuais falhas e, assim, melhorar a capacidade que a cidade já demonstrou possuir para a organização de grandes eventos.
É que, não obstante o reconhecimento do sucesso da organização e, consequentemente, da própria Braga Cidade Europeia do Desporto, haverá sempre melhorias a introduzir e rectificações a fazer. A título de exemplo, direi que a excessiva utilização de vias rodoviárias estruturantes para a prática desportiva, com o consequente encerramento ao trânsito, é um dos paradigmas que deve ser urgentemente repensado, tal o incómodo e até prejuízos de tal opção. E a verdade é que a cidade dispõe de alternativas cuja utilização para eventos desportivos não agravarão o já de si caótico trânsito em Braga.

Artigo originalmente publicado na edição de 18 de dezembro do jornal Correio do Minho.